Que jogo estranho esse tênis, tão belo

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“Que jogo estranho esse tênis, tão belo.”

Artur da Távola foi advogado, jornalista, radialista, escritor, professor além de ter sido senador da república. Escrevia para diversas revistas. Nunca jogou tênis, mas, um dia, após assistir a uma partida na TV, escreveu essa pérola, publicada em revistas e depois em livro.

“Como você responde à agressão? Com outra? É ofensivo? Ou se recolhe, atua na defensiva? Cansa o adversário nas brigas? Parte logo para o destruir? O tênis o denunciará.”

“Haverá esporte mais solitário, e de decisões solipsistas que o tênis? São horas e horas sem falar. Tensão e atenção. Pergunta e resposta. Frases curtas. O tênis não é conversa, encontro ou colóquio: é bate-bola. É troca de insultos ou interjeições. Oposição de opostos. É confronto imediato. Nada de defesas verbais. De grandes teses. Frases curtas e cortantes. Cortadas. Tiradas de efeito. Frase de lá, resposta de cá. Um de cada vez. Estilo telegráfico. Ganha o ponto quem fizer a frase mais aguda. A crítica mais rude. Troca de interjeições! No tênis não há tempo para conceituar. O fato é mais rápido que a sua percepção. A jogada engana o olho. Escapa ao reflexo. Vive de surpresas sempre iguais. Obsessivo. Compulsivo. Horas e horas no vaivém. Não é um grupo tratando de acertar. São dois inimigos, um tratando de fazer o outro errar. O tênis são duas pessoas brigando de morte numa rua deserta. Só eles. Ninguém mais. Horas e horas.”

“Disciplinou a torcida. Elegante, apenas palmas, distinta e distante referência. Tudo o que perturbe a solidão do ódio dos antagonistas deve ser evitado. Apenas o espetáculo de duas solidões se enfrentando, horas e horas, até exaurir o que será derrotado. Jogo sem empate e sem metafísica. O tênis é zen. Aqui e agora. Ação pura.”

“Esporte órfão. Não tem família (equipe). Não tem pai (técnico). A solidão humana. A luta pela vida. Orfandade total. Decisões pessoais e silenciosas. A arma é a raquete. Agressão, muita, derivada para a bola. E tome pancada. Um antigo ritual de luta. Porretes. Tacapes. Paus. Lanças. O homem se civilizou, dizem. Ou supõe-se.”

“Colocou um espaço entre os contendores. Deu-lhes pacíficas roupas brancas. Imaculadas. Simulação de um desejo de paz. Colocou uma rede no meio. A rede tênue define o espaço vital, ou território, propriedade privada, quintal, jardim, terreno de cada um: aqui o meu, ali o seu. Cada um na sua propriedade, defendendo-a. Com porrete. No meio uma rede. Quase desnecessária, linha semi-imaginária, simbólica, mas suficientemente nítida para separar os territórios. Igual aos modestos portões ou porteiras. Fáceis de ser transpostos, mas expondo a risco de vida quem o faça, por dar o direito de reagir à invasão de domicílio.”

“Dois contendores afastados e vestidos de branco. Uma bola para os ligar. Resistente, elástica, ela pode e deve apanhar. E apanha. Ela representa o outro. Ela envia a mensagem e ao mesmo tempo é a mensagem. A violência da raquetada é no outro sem precisar dá-la nele. Porque há a bola. O tênis é a representação simbólica de uma violenta luta entre dois homens, sem exercitar nenhuma forma pessoalmente agressiva entre os contendores. Dois solitários e obsessivos lutadores, horas em silêncio, um na espreita do menor gesto ou esperteza do outro, ambos colocando na bola o ódio conflitivo. O tênis é a tocaia honesta e civilizada.”

“Se toda agressão humana pudesse canalizar a violência do seu impulso, através de uma representação ao mesmo tempo intensa e saudável, metade de suas crises inexistiriam. Tanto quanto esporte de técnica, beleza e eugenia, o tênis é descarga de agressividade. É poder bater à vontade, surrar horas a fio, abater sem remorso, tascar sem pena, cortar sem dó, surpreender, tocaiar sem piedade, espancar sem temor ou culpa. Há uma bola no meio. Há distância entre os contendores. Há uma rede no meio. Há roupa branca de paz, de médico e de casamento. Há silêncio e respeito na plateia. Há o pressuposto de civilização, nobreza e distinção. Eles se batem de longe. Odeiam-se em silêncio. Cercado de significantes de civilização, respeito e status, o tênis é a mais terrível expressão de solidão e agressão tornadas esporte e beleza. Que jogo estranho!”

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